Quinta-feira, 03 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 2 de abril de 2025
A despeito dos resultados majoritariamente positivos das últimas duas décadas, o Programa Universidade para Todos (Prouni), que completa 20 anos em 2025, tem sofrido para preencher todas as bolsas disponibilizadas e viu a ociosidade das vagas disparar. Além disso, a proporção de matrículas a distância em relação às presenciais cresce ano após ano — acompanhando as transformações do setor e desafiando o Ministério da Educação (MEC). O portal O Globo mostrou que os beneficiados pela iniciativa evadem menos, aprendem melhor e conquistam ganhos econômicos mais significativos. Alguns descompassos, no entanto, preocupam especialistas.
Apesar do recorde na oferta de bolsas, as vagas já não são preenchidas como no passado. Das mais de 650 mil abertas em 2024, apenas 26,2% foram efetivamente usadas. Em 2006, o cenário era o oposto: só 21,4% ficaram vazias, de acordo com o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp).
A avaliação de pesquisadores da área é que falta divulgação adequada e há um número exagerado de vagas em cursos de baixo interesse dos estudantes. O Semesp, representante do setor, também entende que esses fatores impactam na alta da ociosidade. A entidade acrescenta que o fim do processo de redistribuição de vagas remanescentes, que não permite mais que o beneficiário troque de curso ou de universidade, contribui para o problema.
Paulo Meyer Nascimento, pesquisador de ensino superior do Ipea, frisa que o Prouni ainda é atrativo, mas vem enfrentando gargalos:
— Seria importante o Estado fazer uma busca ativa desses jovens mais vulneráveis, que estão no CadÚnico e cursam a reta final do ensino médio.
Já o ministro da Educação, Camilo Santana, defende que os últimos anos foram marcados por uma desesperança, entre os jovens, de acessar o ensino superior, especialmente por precisarem começar a trabalhar assim que completam a educação básica ou até antes. Ele acredita que o Pé-de-Meia, programa do governo que paga uma bolsa para alunos carentes de ensino médio, pode ajudar a reverter esse cenário.
— É a nossa medida mais forte para que mais jovens concluam o ensino médio e mantenham o sonho de cursar uma faculdade, com o estímulo de uma poupança que, ao final da escola, pode inclusive contribuir para a permanência nos cursos de graduação — afirma Camilo.
Ead em 31% das bolsas
Outra preocupação de especialistas sobre o Prouni é a explosão de bolsas no ensino a distância (EaD): elas passaram de 8%, em 2009, com 26 mil alunos matriculados, para 31% em 2023, com mais de 124 mil estudantes.
Para Carlos Bielschowsky, ex-secretário de educação a distância do MEC, a modalidade, se bem estruturada, pode ser inclusiva, pois permite que pessoas que trabalham ou têm dificuldade de mobilidade possam estudar.
— Mas temos problemas sérios nesta modalidade no setor privado. No caso do Prouni, que envolve isenção fiscal e, por consequência, empenho de verba pública, é preciso cobrar que cursos sem qualidade suficiente fiquem fora — diz.
O próprio MEC se preocupa com a qualidade da formação a distância. A pasta determinou, em julho de 2024, a proibição da abertura de novos cursos na modalidade e prepara um marco regulatório para o setor. O ministro Camilo Santana já chegou a argumentar que a formação para carreiras como enfermagem, por exemplo, deveria se dar integralmente presencial.
A restrição do acesso à ajuda de custo do governo, que auxilia os estudantes com transporte, alimentação e outras despesas pessoais, é mais um desafio contemporâneo do Prouni. Atualmente, só tem direito ao Programa Bolsa Permanência (PBP-Prouni) quem é bolsista integral e está matriculado em um curso presencial com pelo menos seis semestres e seis horas diárias de aula. O benefício paga R$ 700 mensais.
Segundo o MEC, o total de beneficiados pelo PBP-Prouni é, atualmente, de 12.343 bolsistas — uma fração de menos de 5% de todos os matriculados. A seleção dos beneficiários é realizada periodicamente, no primeiro dia de cada mês, na instituição de ensino à qual o estudante é vinculado.
Andrea Cabello, especialista em ensino superior da UnB, defende que a ampliação desse benefício e a articulação de novos modelos de bolsas podem ajudar na retenção dos alunos:
— Um programa nos moldes do Pé-de-Meia para universitários, que foca na redução da evasão, pode dar força ao Prouni. Criar bolsas de monitoria e iniciação científica voltadas a esses alunos também são boas estratégias — conclui.
Já na avaliação de Celso Niskier, diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), o programa pode melhorar ainda mais criando melhores condições de acesso a permanência para os alunos e já olhar para o futuro dos bolsistas quando eles ingressarem no mercado de trabalho. As informações são do portal O Globo.