Quinta-feira, 03 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 11 de junho de 2024
Há uma séria crise internacional se formando na costa norte da América do Sul. Em um esforço para desviar a atenção de sua longa lista de fracassos e hábitos contínuos de repressão política, o presidente venezuelano Nicolás Maduro está provocando seu pequeno vizinho, a Guiana.
Embora a crise de Essequibo devesse ser pouco mais que uma tempestade em um copo d’água que se resolveria por conta própria, existe um risco real de que ela possa explodir e destruir a credibilidade regional e internacional do Brasil, se Lula não a controlar.
A fronteira internacional na região de Essequibo foi estabelecida por um tribunal de arbitragem internacional em 1899, onde, a pedido de Caracas, os EUA representaram a Venezuela nas negociações com a Grã-Bretanha, que ocupava a colônia da Guiana na época.
Por 63 anos, a Venezuela aceitou a fronteira, até que a Grã-Bretanha começou o processo de retirada colonial, resultando no reconhecimento internacional da Guiana como um país em 1966. Em 2018, a Guiana cansou das tentativas frustradas de negociar com a Venezuela e levou a questão ao Tribunal Internacional de Justiça, pedindo que confirmasse a fronteira de 1899; a Venezuela rejeita a competência do TIJ para decidir sobre o assunto.
Nada disso era particularmente importante até que dois fatores intervieram. Primeiro foi a descoberta de enormes campos de petróleo offshore na região de Essequibo, na Guiana. Segundo, foi o deslizamento completo de Maduro para a repressão política autoritária em 2023, juntamente com a necessidade de desviar a atenção do estado cada vez pior da economia venezuelana e proporcionar novas oportunidades de corrupção para as principais bases de apoio, principalmente as Forças Armadas.
O resultado foi um referendo apressado na Venezuela sobre a anexação de dois terços do território da Guiana; é revelador que não houve qualquer pretensão de consultar os guianenses que vivem na área.
Embora o regime de Maduro tenha alegado uma participação maciça e 95% de aprovação para a anexação e rejeição da autoridade do TIJ, atores dissidentes apontam para o oposto e para o desinteresse generalizado na questão. Maduro agora está mobilizando suas Forças Armadas na fronteira com a Guiana e construindo a infraestrutura necessária para tornar sua anexação retórica uma realidade física.
Por que isso importa para o Brasil e, em particular, para Lula?
Assim como foi o caso em 1995, quando o recém-inaugurado Fernando Henrique Cardoso foi confrontado com uma guerra entre Equador e Peru, a liderança brasileira na região e a credibilidade global dependem da capacidade de manter seu próprio quintal em ordem. Afinal, por que alguém ouviria o Brasil, se ele não consegue evitar uma guerra entre dois de seus vizinhos?
O problema é que a crise de Essequibo é consideravelmente mais complicada do que a disputa entre Equador e Peru. Naquele conflito dos anos 1990, ninguém realmente queria se envolver em hostilidades, e uma eleição no Equador trouxe um novo presidente ao cargo, profundamente comprometido com a paz. Não apenas esse cenário não se repetirá na Venezuela, como a crise de Esequibo também envolve fatores geopolíticos muito maiores.
Simplificando, o Canadá tem mais chances de ganhar a Copa do Mundo de 2026 do que a oposição de ganhar a presidência na Venezuela em julho deste ano. Pior, mesmo que Maduro estivesse inclinado a aliviar as tensões, ele está criando um fervor nacionalista tão grande que isso pode não ser possível. Complicando ainda mais a situação estão os pesados investimentos em novas instalações e treinamento pelas Forças Armadas ao longo da fronteira com a Guiana. Isso está encorajando ainda mais os militares, a ponto de poderem exigir ou simplesmente tomar licença para atacar, independentemente dos comandos presidenciais ou das consequências para a já frágil posição internacional da Venezuela.
Em teoria, a maior restrição a uma potencial invasão venezuelana da Guiana é o risco de isolamento internacional. No entanto, isso assume que é o engajamento com o Ocidente e o resto da América do Sul que importa para a Venezuela. Tais restrições são mitigadas pelos estreitos laços do regime de Maduro com Putin e sua comitiva, bem como fortes vínculos econômicos com a China. Ambos esses relacionamentos bilaterais desempenharam um papel crítico em sustentar a Venezuela durante a espiral do regime chavista em direção ao autoritarismo sob Maduro. Não há muita razão para pensar que a anexação física de Essequibo levaria Moscou ou Pequim a reavaliar as relações com Caracas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.