Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
Por Edson Bündchen | 27 de fevereiro de 2025
Na semana passada, comentei neste espaço, sobre o necessário comedimento, moderação ou prudência em relação ao uso do poder como requisito essencial para a normalidade democrática. A observância das regras não escritas seria, em conjunto com o estrito acatamento das regras escritas, o melhor e mais desejável comportamento institucional. O tema foi abordado dentro do contexto no qual o atual Presidente americano, Donald Trump, vem assombrando o mundo com um estilo absolutamente desalinhado com qualquer traço de autocontenção, temperança nos modos, tolerância com os outros e autocontrole. Não é, claro, aquilo que o mundo assiste ser diariamente divulgado pela Casa Branca ou pelo próprio Trump, nas suas provocativas mensagens pelas redes sociais. Ao contrário, o comedimento que poderia se esperar simplesmente não existe. A ausência dessa noção de equilíbrio diante das forças externas e dos princípios de razoabilidade, que deveriam escandalizar, estão sendo, paradoxalmente, diluídos e digeridos, normalizando alguns desvios comportamentais de uma forma surpreendente.
Quem melhor definiu esse paradoxo foi Daniel Patrick Moynihan, ex-cientista social para quem “os seres humanos têm uma capacidade limitada de lidar com pessoas que se comportam de maneiras que divergem de padrões compartilhados”. Esse raciocínio também pode ser aplicado hoje, de acordo com os pesquisadores de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, com as democracias, e nenhuma democracia do mundo está mais acometida por ameaças do que a americana. Embora, segundo eles, desvios comportamentais no campo político e violação de regras não escritas de civilidade, não tenham surgido com Trump, sua atuação às tem acelerado como nunca. Já no primeiro mandato, o uso rotineiro de insultos pessoais, intimidações, mentiras em série e fraudes pelo agora novamente Presidente dos EUA, ajudou, inevitavelmente, a normalizar práticas deste tipo. As mensagens de Trump podem gerar indignação na mídia, entre os democratas e até entre republicanos, mas a efetividade das respostas tem sido limitada pela quantidade abrupta e inédita das violações. Encorajado pelo seu segundo mandato, Trump parece dobrar a aposta e ser ainda mais imprevisível, agressivo e disruptivo em suas palavras, expandindo definitivamente as fronteiras do que poderia ser entendido como razoável politicamente.
Trump ficou quatro anos no poder e o mundo mudou relativamente pouco por conta de sua atuação, talvez mais contido pelas circunstâncias e inexperiência do que propriamente pela moderação em suas ambições, agora tão explicitas. Novamente à frente da Nação mais poderosa do planeta, Trump repete a mesma postura, com ainda mais agressividade e destempero. Mais velho e demonstrando ressentimento, trouxe para perto de si pessoas leais e que comungam da mesma visão egocêntrica de mundo, cujos reflexos diversos países começam a sentir. Se, no primeiro mandato, o comportamento mercurial e a forma cáustica de se comunicar ficaram quase que circunscritas ao ambiente doméstico, os primeiros 30 dias do seu novo Governo ampliaram o raio de ação e também o grau de virulência de suas mensagens.
Com essa disposição para violar normas e corromper regras democráticas, escritas ou não, Trump abraça três grandes frentes de atuação e parece depositar nelas seu estilo sem reservas nem freios. Na agenda diplomática, usa linguagem ameaçadora com aliados, mas adoça a boca de antigos oponentes. Coage e impõe a lei do mais forte, como nos casos do México, Canadá, Europa, Ucrânia e Dinamarca. Em sua cruzada cultural, censura discursos alinhados à chamada agenda multicultural, de diversidade e inclusão. Busca, na agenda econômica, equilibrar os gigantescos déficits comerciais e usar as tarifas como carro-chefe de tal intento. Esses três grandes movimentos, em conjunto, chacoalham o planeta, mas podem ser administráveis e transitórios, já que haverá eleições legislativas em dois anos e Trump não poderá concorrer novamente em 2028. Será?
(edsonbundchen@hotmail.com)
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