Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
Por Redação O Sul | 26 de fevereiro de 2025
O calor pode nos fazer envelhecer mais depressa. A exposição prolongada a temperaturas elevadas extremas, como as deste ano no Brasil, que em menos de dois meses acumulou cinco ondas de calor, pode acelerar o envelhecimento. O tempo quente faz isso influenciar o modo como genes funcionam, afirmam cientistas americanos.
Dessa forma, o calor aumenta a idade biológica, que entra em descompasso com a cronológica, para pior. O alerta está num estudo publicado nessa quarta-feira no periódico Science Advances, um dos de maior prestígio internacional. No estudo, a exposição ao calor aumentou a idade biológica em até dois anos e oito meses, dependendo da duração e da intensidade da exposição.
Isso significa que, mesmo sem mudanças no tempo de vida real, as células e órgãos do corpo funcionavam como se fossem até quase 3 anos mais velhas do que deveriam para sua idade cronológica.
Esse é o primeiro estudo a indicar ao longo de dias, meses e anos mudanças provocadas pelo estresse térmico na forma como o DNA se expressa e controla o funcionamento do corpo. Desenvolvida por cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (USC), a pesquisa analisou dados moleculares e celulares de 3.686 pessoas, com 56 anos ou mais, nos Estados Unidos.
Os pesquisadores usaram ferramentas matemáticas chamadas relógios epigenéticos para estimar as idades biológicas de cada participante. Foi analisado o DNA extraído do sangue. Em seguida, compararam essas mudanças com o histórico de calor nas regiões onde os participantes viviam, com base em dados do Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA, de 2010 a 2016.
Os dados foram os de índice de calor. Esse índice combina temperatura e umidade para estimar a sensação de conforto e desconforto térmico.
Foram considerados três níveis para a sensação térmica (e não apenas a temperatura medida pelo termômetro). O nível de “Cautela” inclui valores de 27°C a 32°C; “Extrema cautela”, compreendido de 32°C a 39°C; e “Perigo”, de 39°C a 51°C. Os dias de todos esses três níveis foram incluídos no estudo. Neste verão no Brasil, dias consecutivos de sensação térmica superior a 39ºC têm sido frequentes.
O estudo sugere que uma pessoa exposta a 30 dias consecutivos de calor com sensação térmica superior a 32ºC pode envelhecer biologicamente cerca de 51 dias a mais do que o esperado.
Os pesquisadores não encontraram diferenças significativas entre grupos de diferentes idades, gêneros ou classes sociais, sugerindo que o calor afeta a todos – vale observar que as condições socioeconômicas e a desigualdade social são diferentes entre EUA e Brasil.
Mas a análise mostrou uma correlação significativa entre morar em áreas com mais dias de calor extremo e indivíduos com aumento maior na idade biológica. Isso se manteve mesmo após considerar diferenças, como atividade física, consumo de álcool e tabagismo.
Uma das autoras do estudo, Eunyoung Choi disse que participantes que moram em áreas com mais dias de calor extremo (acima de 32°C de sensação térmica) por até metade do ano, como os moradores de Phoenix, no Arizona, sofreram um envelhecimento biológico até 14 meses mais rápido do que aqueles que vivem em áreas com menos de 10 dias de calor por ano.
O estudo do grupo californiano impressiona porque apenas sete dias de exposição ao calor muito intenso foram correlacionados com alterações no DNA, afirma o epigeneticista Mariano Zalis, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“E esse estudo foi feito num período muito menos quente do que o atual. Os dois últimos anos foram de recordes de temperatura e 2025 começou terrível. O impacto do calor em nossa saúde precisa ser mais bem conhecido e mitigado”, destaca Zalis.