Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
Por Redação O Sul | 23 de novembro de 2018
A vida da médica Kenia Flores Perez, 35 anos, ganhou outro ritmo a partir do meio desta semana – um ritmo indesejado por ela. No fim da tarde de quarta-feira, Kenia terminou de empacotar suas coisas. À noite, participou de uma festa de despedida, regada a música sertaneja. Acordou cedo na quinta e recebeu a visita de moradores da pacata Teresina de Goiás (GO), de 4 mil moradores.
O policial apareceu, a vizinha apareceu, a dona da casa ficou o tempo inteiro ao lado. Num clima quase fúnebre, deu um longo abraço no secretário de Saúde da cidade. Às 10h, rumou para Brasília, a 280 quilômetros do município. Foi direto para um hotel, e passou as últimas horas no Brasil esperando o voo que a levaria para Cuba , nesta sexta.
Kenia é um dos milhares de médicos cubanos que precisaram deixar às pressas seus postos de trabalho e suas vidas no Brasil – já consolidadas, para muitos deles – em razão da decisão do governo de Cuba de abandonar o Mais Médicos, depois das ofensivas do presidente eleito, Jair Bolsonaro, contra o modelo do programa.
A médica se preparava para tirar férias neste mês. Já são dois anos no Brasil, sempre em Teresina de Goiás, uma cidade encravada na Chapada dos Veadeiros, na região mais pobre e isolada do território goiano. Um e-mail mudou tudo. As férias viraram um retorno atabalhoado e definitivo.
As decisões sobre o destino dos médicos cubanos foram comunicadas em e-mails curtos, disparados diretamente aos profissionais, sem passar pelos secretários de saúde. Os contatos foram feitos pelos cubanos que estão à frente da área responsável na Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) no Brasil, entidade que gerencia os contratos do Mais Médicos, e pelo próprio governo cubano.
Kenia foi pega de surpresa. Seu contrato venceria somente no fim de 2019. Por e-mail, foi avisada da necessidade de voltar a Cuba. Primeiro, informaram a ela que era preciso estar num hotel em Brasília após as 14 horas de quinta. Depois, a informação repassada foi para ela chegar ao hotel antes do meio-dia. E assim foi feito.
A outra médica cubana que fazia atendimentos em Teresina, Mabel Hernandez Gonzalez, deixou a cidade antes de Kenia. Foi uma saída ainda mais apressada, sem chances de despedida dos pacientes e da comunidade local. As médicas são adoradas pelas pessoas – não há um único relato contrário à atuação profissional das duas. Mabel foi a Brasília para o voo a Cuba antes mesmo de Kenia.
O improviso e a pressa no retorno surpreenderam o secretário de Saúde do município, Josene Pereira Lopes. Ele planejava uma festa de despedida para as duas. Conseguiu fazer a festa apenas para uma.
Kenia não disfarçava a frustração em ter de antecipar o encerramento de um contrato previsto para durar até o fim do ano que vem. A médica já estava adaptada ao Brasil, à pequena comunidade onde vivia e trabalhava. Parcelou o pagamento da compra de diversos móveis, que ficaram para trás. Empacotou o que foi possível, seguiu para Brasília sem saber se conseguiria despachar todos os seus pertences.
A experiência no Brasil é a segunda dela no plano internacional. Antes, trabalhou na Venezuela, entre 2008 e 2011. Voltou para Cuba e, desde novembro de 2016, atendia pacientes de uma das regiões mais pobres e isoladas do Centro-Oeste brasileiro, onde raramente um médico se dispõe a morar na cidade. Encontrou um Brasil diferente do que ela via nas novelas brasileiras transmitidas em Cuba.
Segundo a médica, o primeiro ano no Brasil foi o mais difícil, inclusive pela busca por aceitação dos moradores da cidade. Já o segundo ano foi de adaptação completa. Por isso, o sentimento de frustração diante da decisão repentina e comunicada por e-mail.
Volta para casa
Kenia voltará para sua cidade, Las Tunas, e reencontrará a filha de 7 anos, que ficou com os avós maternos. Ela planejava uma visita da filha e do casal de idosos ao Brasil, o que não foi possível em razão do alto preço das passagens aéreas.
A médica, apesar da contrariedade com o retorno apressado, não critica o modelo adotado para os cubanos no Mais Médicos. Por outro lado, ela questiona a posição de Bolsonaro em relação aos profissionais de Cuba que vieram ao Brasil. O presidente eleito já disse mais de uma vez que os médicos cubanos oferecem atendimento inferior ao oferecido por brasileiros, e lançou dúvidas até mesmo sobre serem médicos de fato.