Sábado, 29 de março de 2025
Por Felipe Beck | 26 de março de 2025
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editorias de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
“Accountability” é uma daquelas palavras difíceis de traduzir. Não é apenas “responsabilidade”. Também não é só “prestação de contas”. E vai além de “transparência”. Na verdade, é a junção de tudo isso — com um ingrediente a mais: a obrigação de responder por seus atos, decisões e resultados, com base em critérios previamente definidos, e diante de quem tem o direito de cobrar.
A ausência de uma tradução direta no português não é coincidência. Pode ser um espelho de algo mais profundo: uma lacuna cultural. Em geral, o brasileiro não foi educado para ser accountable. Nossa história, marcada por heranças autoritárias e estruturas paternalistas, ensinou que é possível terceirizar responsabilidades, fugir de consequências e confiar na memória curta da sociedade.
Isso se manifesta de forma crônica nas instituições públicas. Governos que gastam sem planejamento, políticas que mudam ao sabor de interesses eleitoreiros, obras que nunca terminam — e ninguém responde. Em empresas estatais, escândalos se sucedem, mas as punições são raras. No dia a dia, vemos isso em atitudes simples: desde quem fura a fila até quem “ajeita” um atestado. A cultura da impunidade não é uma exceção — é parte do tecido.
Em contraste, países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e os nórdicos valorizam a accountability como um princípio básico de gestão pública e privada. Lá, metas são claras, indicadores são públicos e lideranças são cobradas por entregas. CEOs perdem o cargo por não atingir resultados. Prefeitos são julgados pela eficiência. E o cidadão comum entende que o sistema funciona quando há consequências — boas ou ruins.
A diferença? Clareza de objetivos, transparência nos indicadores e cultura de responsabilização. Não por acaso, essas nações ocupam o topo dos rankings de competitividade, confiança institucional e qualidade de vida. Accountability, nesses lugares, não é só uma palavra — é um valor.
Agora imagine: e se isso fosse a regra no Brasil? E se cada gestor público tivesse metas claras, e a população soubesse exatamente o que esperar dele? E se empresas públicas funcionassem como organizações eficientes, com meritocracia e prestação de contas? E se, em todas as esferas da sociedade, cada um soubesse exatamente qual seu papel — e o impacto de cumpri-lo (ou não)?
Mais do que importar uma palavra, precisamos importar o comportamento que ela representa. Como disse Peter Drucker: “O que pode ser medido, pode ser melhorado.” Mas o que não é medido, nem cobrado, continua passando despercebido.
A pergunta que fica é: quem está te cobrando hoje pelos resultados que você deveria entregar? E o que você está fazendo para ser uma pessoa verdadeiramente accountable — mesmo que essa palavra não exista no nosso português?
* Felipe Beck
* Instagram: @felipebeck
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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