Domingo, 06 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 5 de abril de 2025
No dia 2 de dezembro de 2024, quando José Eduardo Franco dos Reis compareceu para prestar depoimento na Delegacia de Combate a Crimes de Fraude Documental e Biometria, na Luz, região central de São Paulo, alegou ser irmão gêmeo do juiz Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield, aposentado do Tribunal de Justiça do Estado.
A versão não convenceu o Ministério Público de São Paulo. O órgão denunciou o magistrado por uso de documento falso e falsidade ideológica.
Segundo a denúncia, José Eduardo Franco dos Reis criou a persona de Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield e usou documentos falsos para conseguir um RG com o novo nome. Ele se apresentava como descendente de nobres ingleses.
Em depoimento, José Eduardo se declarou artesão, natural de Águas da Prata, no interior de São Paulo, filho de José dos Reis e Vitalina Franco dos Reis e morador da Vila Mariana. Ele alegou que descobriu a existência desse suposto irmão gêmeo, Edward, a partir de uma confissão da mãe quando o pai morreu.
Na versão dele, Edward teria sido “doado” para uma família na Inglaterra, mas mudou para o Brasil na década de 1980, onde teria vivido até a aposentadoria. Depois, teria retornado a Londres. José Eduardo deu até endereço e telefone do suposto irmão. A reportagem do portal Estadão tentou contato no número de celular, sem sucesso.
“Indagado se é Edward, disse que não, disse ser José Eduardo Franco dos Reis; que, exerce a atividade de artesão; Nada mais disse nem lhe foi perguntado”, diz o termo de depoimento.
De acordo com a denúncia do Ministério Público de São Paulo, no dia 19 de setembro de 1980, José Eduardo teria comparecido a um posto de identificação da Polícia Civil e tirado o documento em nome de Edward Wickfield. Para tanto, segundo a Promotoria, apresentou um certificado falso de reservista do Exército, um documento que dizia ser ele servidor do Ministério Público do Trabalho, uma carteira de trabalho e um título de eleitor, todos com o mesmo nome falso. Como na época, as bases de documentos não se comunicavam entre si e os papéis não eram armazenados em sistemas eletrônicos, era fácil, de acordo com o MP, uma falsificação.
A fraude foi descoberta em outubro de 2024, quando ele esteve no Poupatempo da Sé para pedir a segunda vida da carteira de identidade. Foram encontrados dois registros diferentes associados às mesmas digitais. A divergência só foi percebida porque os registros do Instituto de Identificação Ricardo Gumblenton Daunt (IIRGD) haviam sido digitalizados.
A persona teria sido assumida pelo magistrado pouco antes da graduação. Ele cursou Direito no Largo do São Francisco. Depois disso, segundo o Ministério Público, prestou concurso e atuou décadas como juiz sob a identidade falsa.
Advogados e magistrados que conviveram com o juiz ouvidos reservadamente pelo portal Estadão afirmam que, ocasionalmente, ele abordava a ligação com lordes ingleses.
Depois que o caso veio a público, colegas começaram a circular impressões sobre o juiz em grupos de mensagens. Segundo os relatos, Edward dizia que usava o metrô para se deslocar ao Fórum João Mendes porque estava acostumado com o transporte público na Inglaterra. Também afirmou que fazia tratamento fonoaudiológico para melhorar o português marcado pelo sotaque inglês.
“Quando o príncipe da Inglaterra se casou, ele tirou férias na mesma época. A gente achava que ele tinha ido para o casamento mas ele falava que não podia contar nada”, relatou um ex-colega em um desses grupos de magistrados. (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)