Quinta-feira, 03 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 2 de abril de 2025
Uma vez instalado e próximo a uma antena, o computador seria capaz de acessar todas as informações sobre as trocas de comunicações entre a torre e os celulares conectados a ela.
Foto: ReproduçãoUm servidor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) disse em depoimento à Polícia Federal (PF) que uma ferramenta foi examinada para ser empregada em ações de contrainteligência. O objetivo era fazer “varreduras” em embaixadas. A PF investiga a existência de um suposto esquema “paralelo” de atuação do órgão durante o governo de Jair Bolsonaro. O relatório final ainda não foi apresentado.
Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão na Abin, em outubro de 2023, policiais encontraram anotações citando dois novos programas: o LTE Sniffer, que poderia ser utilizado em ações como às direcionadas às embaixadas, e o Cobalt Strike, ferramenta usada para espionar autoridades paraguaias.
O LTE Sniffer está disponível gratuitamente na internet e tem código aberto, isto é, seu funcionamento não é secreto. A ferramenta funciona, segundo especialistas, como um “IMSI Catcher”. Ou seja, com o auxílio de uma antena, permite monitorar o tráfego das redes celulares.
Uma vez instalado e próximo a uma antena, o computador seria capaz de acessar todas as informações sobre as trocas de comunicações entre a torre e os celulares conectados a ela. De acordo com o agente da Abin ouvido pela Polícia Federal, a ferramenta era estudada para a construção de um modelo próprio da Abin para rastrear os sinais. Segundo ele, o objetivo seria o uso em varreduras de representações de países estrangeiros em missões de contramedidas de inteligência.
Escopo de atuação
Uma das atribuições da Abin é monitorar a possível presença, por exemplo, de espiões estrangeiros em território brasileiro. Segundo o agente, a ferramenta nunca foi utilizada para qualquer ação clandestina.
Especialista em direito constitucional e professor da Universidade Federal de Uberlândia, Alexandre Walmott explica que a ação faz parte do escopo de atuação da Abin. O desenvolvimento de tarefas de contrainteligência está previsto na lei que institui a agência.
“A atividade de espionagem é essencialmente algo que você realiza para obter matérias que não seriam obtidas de maneira simples ou fácil. A ação está justificada pelos objetivos de soberania nacional. É uma ética própria justificada para atender aos fins do país e fazer valer os interesses do Estado brasileiro”, disse Walmott.
Os sistemas foram usados também em uma ação contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), de acordo com o agente ouvido pela PF. Não há na investigação detalhes sobre as circunstâncias em que a ferramenta foi utilizada.
O funcionamento é similar ao do First Mile, mas menos poderoso. Ao passo que o First Mile permitia localizar celulares remotamente, uma solução como o LTE Sniffer exige uma proximidade com a antena. Entre as informações mais sensíveis disponíveis estariam o IMEI e o IMSI dos celulares, que funcionam como um CPF interno de cada aparelho para as operadoras.
Especialistas apontam que o público-alvo do programa são pesquisadores de segurança. A princípio, o software não permite por si só saber exatamente o que o celular está fazendo, isto é, se está trocando mensagens ou em uma ligação. Seu principal uso seria confirmar a presença de um alvo que estivesse nas proximidades.
Outra ferramenta, Cobalt Strike, foi usada para a operação contra o governo paraguaio, de acordo com o depoimento do agente à PF. Segundo o servidor, a missão tinha como objetivo invadir os computadores de autoridades paraguaias para conseguir informações sobre a negociação entre os dois países sobre as tarifas da usina de Itaipu. O governo paraguaio convocou o embaixador do Brasil no país para dar explicações.
(AG)