Stacey Ricks pode escolher entre três cartões de vacinação. Aos 49 anos, ela acaba de receber um rim, toma medicação imunossupressora e não desenvolveu anticorpos após as duas primeiras doses da Moderna.
Em junho, tomou a vacina da Johnson & Johnson. Para Stacey obter a quarta e a quinta dose foi mais complicado. Em julho, armada com um atestado médico explicando que não havia desenvolvido anticorpos, ela convenceu um farmacêutico de Houston a lhe aplicar mais duas doses da Pfizer.
Stacey é uma das muitas pessoas com sistema imunológico comprometido que driblou as diretrizes do governo dos EUA e recebeu uma quarta ou quinta dose não autorizada.
Muitos médicos acham que as autoridades sanitárias americanas vêm agindo muito lentamente para proteger os mais vulneráveis, aumentando a preocupação de quem tem o sistema imunológico comprometido.
Nos EUA, os médicos podem prescrever medicamentos aprovados fora de seu uso recomendado – como a vacina da Pfizer. Mas, para receber mais um dose, é preciso assinar um documento assumindo o risco.
Portanto, quem toma doses a mais não está fazendo nada ilegal.
Estas pessoas podem enfrentar uma ação civil, caso os laboratórios decidam processá-las por mentir, mas isso é improvável, segundo Govind Persad, professor de direito da Universidade de Denver.
Obter doses extras pode funcionar para alguns – até certo ponto. Após a quinta dose, Stacey desenvolveu uma resposta “moderada” de anticorpos, mas ainda longe do ideal. Por isso, ela vive como se não tivesse sido vacinada.
Muitos pesquisadores, porém, dizem que algumas pessoas com problemas imunológicos podem nunca obter anticorpos, não importa quantas doses recebam.
Estima-se que haja 7 milhões de indivíduos imunocomprometidos nos EUA, mas é difícil saber quem se beneficiaria com doses adicionais, disse Robert Wachter, chefe do Departamento de Medicina da Universidade da Califórnia. Chris Neblett, de 44 anos, que também recebeu um rim e toma imunossupressores, só obteve uma resposta de seu sistema imunológico após a quarta dose da Pfizer, em novembro. “Claro que estou driblando as regras”, disse. “Mas qual a consequência? Nenhuma.”
Recorde
Os Estados Unidos registraram na última segunda-feira (3) mais de um milhão de casos de covid-19 pela primeira vez desde o início da pandemia, conforme dados da plataforma de monitoramento da Universidade Johns Hopkins.
O total de 1.083.948 é quase o dobro do recorde anterior de cerca de 590 mil casos em um único dia, estabelecido há apenas quatro dias, em meio à disseminação da variante ômicron, mais contagiosa.
O número de pessoas infectadas pode ser ainda maior nos EUA, onde os testes caseiros, cujos resultados não são enviados para as autoridades, tornam-se cada vez mais populares.
Ainda assim, é possível que os dados da primeira segunda-feira útil de 2022 tenham sido inflados pelo acúmulo de notificações atrasadas das festas de fim de ano.