Domingo, 06 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 5 de abril de 2025
Por trás da atuação parlamentar pela aprovação da anistia aos presos do 8 de Janeiro, militantes e familiares dos envolvidos nos ataques aos Três Poderes têm se dedicado a manter a pauta nos holofotes.
Na medida em que avançam os julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os denunciados na tentativa de golpe de Estado, a Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav) e seus aliados vêm lançando mão de iniciativas diversas para fortalecer a narrativa de perseguição e pressionar a opinião pública a seu favor.
A pauta, dizem seus articuladores, chegou nos últimos dias ao seu momento de maior exposição — impulsionada, na opinião da advogada da Asfav, Carolina Siebra, pelo julgamento da cabeleireira Débora Rodrigues no STF no fim de março, feito paralelamente à apreciação da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Jair Bolsonaro (PL) e outros por tentativa de golpe de Estado. Os dois casos abriram uma nova oportunidade para os aliados do ex-presidente retomarem a ofensiva pelo perdão aos presos.
Débora é acusada de praticar cinco crimes, entre eles associação criminosa armada e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Mas a versão de que ela poderia ser condenada a 14 anos de prisão apenas por ter pichado com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua da Justiça tem sido usada para questionar supostos excessos dos ministros da Corte. A cabeleireira virou símbolo-mor da pauta da anistia — e, em meio à pressão sobre o caso, ela teve a prisão convertida em domiciliar pelo STF.
Para manter a pauta nos holofotes, advogados bolsonaristas organizam um almoço com Bolsonaro para o dia 10 de abril em Brasília, com ingressos a R$ 200. A intenção é usar o evento para dar repercussão à denúncia que eles devem protocolar na Organização dos Estados Americanos (OEA) a respeito das condições dos presos.
A Asfav elaborou um dossiê de 102 páginas com o que ela julga ser abusos e violações dos direitos de bolsonaristas encarcerados. O documento diz que as pessoas detidas pela Polícia Federal (PF) no acampamento em frente ao quartel-general do Exército e dentro dos prédios públicos sofreram tortura e maus tratos por parte dos agentes.
O relatório destaca, por exemplo, a carência de itens de higiene e roupas para os bolsonaristas presos, dificuldades de visitação impostas às famílias, destruição de bens pessoais, “excessiva gravidade das medidas cautelares impostas aos réus soltos” e violações às prerrogativas dos advogados. O documento cita 48 supostas irregularidades processuais e outras queixas.
A Asfav tem feito um périplo pelo gabinete de autoridades para tentar sensibilizá-las, muitas vezes em vão. A agenda inclui a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal, a Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abracrim), o governo do Distrito Federal, o Ministério dos Direitos Humanos, gabinetes de parlamentares bolsonaristas e uma aposta em alcançar alguma repercussão internacional.
Além de protocolar dezenas de denúncias de violações junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, a Asfav se encontrou com a comunidade de brasileiros na Flórida, em Washington e em Nova York, deu entrevistas a comunicadores bolsonaristas nos Estados Unidos e fez um pronunciamento em frente ao Congresso americano. O grupo também se reuniu com a Alliance Defending Freedom, que defende pautas conservadoras, e compareceu ao CPAC (Conservative Political Action Conference), evento ligado à direita radical americana.
“A associação tem se dedicado à defesa das vítimas do 8 de Janeiro. E quando eu digo isso, não estou falando que eu quero impunidade ou que nada aconteceu no 8 de Janeiro. Nós queremos que as pessoas que cometeram eventuais crimes paguem na proporcionalidade do seu ato”, diz a presidente da Asfav, Gabriela Ritter, filha de Miguel Fernando Ritter, preso no episódio.
Se a articulação da Asfav não tem conseguido furar a bolha, a associação vem conquistando prioridade na agenda de parlamentares bolsonaristas. O senador Eduardo Girão (Novo-CE), por exemplo, anunciou a doação de seu salário do mês de fevereiro para o grupo — uma remuneração bruta de R$ 46,3 mil.
Além do trabalho de bastidor, Bolsonaro e seus aliados organizam para este domingo (6), na Avenida Paulista, a primeira manifestação de rua após ter se tornado réu no STF. O ato tem como mote o perdão aos condenados pelo 8 de Janeiro e será um teste da capacidade de Bolsonaro levar à população às ruas após o protesto esvaziado na praia de Copacabana em março — que também teve a anistia como chamariz e reuniu 18,3 mil pessoas, segundo levantamento da USP. (As informações são do Estado de S. Paulo)