Sexta-feira, 04 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 3 de agosto de 2024
O retorno de Donald Trump à Casa Branca seria visto como “uma oportunidade única em mil anos” para a Coreia do Norte, afirmou um ex-diplomata norte-coreano à BBC.
Ri Il Kyu, o desertor de mais alto escalão a escapar da Coreia do Norte desde 2016, teve sete encontros com Kim Jong Un.
Ri, que fugiu para a Coreia do Sul com sua família em novembro passado enquanto trabalhava em Cuba, revela ter ficado “tremendo de nervosismo” na primeira vez que conheceu o líder norte-coreano.
No entanto, ele descreve Kim Jong Un como “sorridente e de bom humor” após cada reunião. “Ele elogiava as pessoas com frequência e ria. Ele parecia uma pessoa comum”, diz Ri.
Apesar de sua aparência amigável, Ri acredita que Kim Jong Un faria qualquer coisa para garantir sua sobrevivência, inclusive exterminar seu próprio povo se necessário. “Ele poderia ter sido uma pessoa e um pai maravilhoso, mas transformá-lo em um deus o tornou um ser monstruoso”, afirma Ri.
Em uma longa entrevista com a BBC, Ri forneceu uma visão rara sobre os objetivos de um dos regimes mais secretos e repressivos do mundo.
Ele afirma que a Coreia do Norte ainda vê Donald Trump, ex-presidente e candidato à presidência dos EUA, como um possível negociador para seu programa de armas nucleares, apesar do fracasso das negociações em 2019.
Trump já descreveu seu relacionamento com Kim Jong Un como uma conquista importante de sua presidência e afirmou que os dois “se apaixonaram” ao trocar cartas.
Recentemente, em um comício, Trump afirmou que Kim Jong Un gostaria de vê-lo de volta ao cargo, dizendo: “Acho que ele sente minha falta, se você quer saber a verdade.”
Segundo Ri, a Coreia do Norte pretende usar esse relacionamento pessoal a seu favor, apesar da declaração oficial de Pyongyang no mês passado, que afirmou não se importar com o resultado das eleições nos EUA.
Ri acredita que a Coreia do Norte nunca renunciará às suas armas nucleares e provavelmente buscará um acordo para congelar seu programa nuclear em troca da suspensão das sanções dos EUA.
No entanto, ele adverte que Pyongyang não negociaria de boa-fé e que qualquer acordo para congelar o programa nuclear seria uma “manobra enganosa” que apenas fortaleceria o regime norte-coreano.
“Aposta de vida ou morte”
Oito meses após desertar, Ri Il Kyu vive com sua família na Coreia do Sul, sob proteção de um guarda-costas policial e dois agentes de inteligência. Ele compartilha os motivos que o levaram a abandonar seu governo.
Após anos enfrentando corrupção, suborno e falta de liberdade, Ri chegou ao seu limite quando seu pedido para viajar ao México para uma cirurgia de hérnia de disco no pescoço foi negado.
“Eu vivi como o 1% mais rico da Coreia do Norte, mas isso ainda é pior do que uma família de classe média no Sul”, afirma.
Como diplomata em Cuba, Ri ganhava apenas US$ 500 (R$ 2.870) por mês e teve que vender charutos cubanos ilegalmente na China para sustentar sua família.
Quando revelou à esposa seu desejo de desertar, ela ficou tão abalada que precisou ser hospitalizada com problemas cardíacos.
Após isso, ele manteve seus planos em segredo e só informou à esposa e ao filho sobre sua decisão de partir seis horas antes de embarcar.
Ri descreve a deserção como uma “aposta de vida ou morte”. Ele explica que os norte-coreanos comuns pegos desertando geralmente são torturados por alguns meses e depois liberados, mas para a elite como ele, há apenas dois possíveis destinos: a vida em um campo de prisioneiros políticos ou a execução por um pelotão de fuzilamento.
“O medo e o terror eram avassaladores. Eu podia aceitar minha própria morte, mas não suportava a ideia de minha família ser enviada para um gulag”, diz.
Embora Ri nunca tenha acreditado em Deus, enquanto esperava no portão do aeroporto no meio da noite, ele começou a rezar.
A última deserção de alto perfil conhecida para a Coreia do Sul foi a de Tae Yong-ho em 2016. Ex-embaixador adjunto no Reino Unido, Tae foi recentemente nomeado o novo líder do conselho consultivo presidencial da Coreia do Sul para a unificação.
Sobre a recente aproximação entre a Coreia do Norte e a Rússia, Ri Il Kyu afirma que a guerra na Ucrânia foi uma grande oportunidade para Pyongyang.
Segundo estimativas dos EUA e da Coreia do Sul, a Coreia do Norte teria vendido milhões de cartuchos de munição para Moscou para apoiar a invasão, em troca de alimentos, combustível e possivelmente até tecnologia militar.
Ri destaca que o principal benefício desse acordo para Pyongyang foi a possibilidade de continuar desenvolvendo suas armas nucleares.
A Rússia criou uma “brecha” nas rigorosas sanções internacionais contra a Coreia do Norte, permitindo que o país desenvolvesse livremente suas armas nucleares e mísseis, além de fortalecer sua defesa, sem precisar solicitar alívio das sanções dos EUA.