Quinta-feira, 03 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 2 de abril de 2025
Drauzio Varella está lançando seu 20º livro, O Sentido das Águas, registro de viagens que fez pela bacia do Rio Negro. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada na segunda-feira (31), além de falar sobre o novo trabalho, o médico e escritor criticou o movimento antivacinas.
Ele relembrou a infância para salientar a importância da vacinação e comparou o Brasil com os Estados Unidos. “Eu tive todas as doenças da infância: sarampo, coqueluche, o que você quiser. Embora eu morasse num bairro que ficava meia hora a pé da Praça da Sé, não havia nenhuma vacina. Nunca estive em uma sala de aula que não tivesse uma criança com aquelas próteses, por causa da poliomielite”, contou.
O doutor acrescentou: “O Brasil fez um tremendo esforço de vacinação. Começou em 1973, na época dos militares. Criamos o maior sistema de vacinação do mundo. Os americanos vacinam mais, pois a população é maior. Mas lá você paga pela vacina que toma. Aqui não, é gratuito para todos”.
Varella também concordou que o movimento antivacinas está atrelado à ideologia política e condenou quem faz parte disso. “Esses caras deviam ser presos, porque estão cometendo um crime. Não dá pra chamar de mau-caratismo. Mau-caratismo é se eu pegar 50 reais seus emprestados e não pagar. Quanta gente morreu [na pandemia de covid-19] porque não se vacinou? Isso é um crime contra a saúde pública”, disse.
“Eu não me meto em política. Nunca me meti. Tive convites. Toda eleição me convidam pra ser candidato a alguma coisa, mas nunca me envolvi em política. Isso não era uma questão política. Era uma questão de saúde pública”, finalizou o oncologista de 81 anos.
As preocupações sociais do médico sempre foram expostas com clareza ao longo de sua carreira. “Temos que distribuir renda para diminuir a violência”, prega, ao condenar a concentração de riqueza na mão de bilionários como Elon Musk e Jeff Bezos. Esse traço progressista, porém, lhe trouxe uma onda de ataques nos últimos anos, especialmente com o advento das redes sociais e do negacionismo. Drauzio não se abala com isso. Aos 81 anos, também não teme o fim – viu a morte de perto inúmeras vezes e parece estar em bons termos com ela. Ateu confesso, ele ainda discutiu, nesta conversa, a repressão social em torno da ausência de crenças. “Nunca senti que se você ajoelhar diante de um altar, isso vai te ajudar a viver melhor”, confessa. Leia abaixo alguns trechos da entrevista.
– Está claro em toda sua obra esse olhar humano, o coração aberto, e a capacidade de ouvir o próximo. A empatia é o principal triunfo da sua personalidade? “Não sei se é triunfo. Porque isso não é uma coisa estudada. É uma curiosidade natural mesmo, que eu tenho desde criança. Nasci no bairro do Brás, durante a 2ª Guerra. Era um bairro operário, cheio de estrangeiros. Italianos, espanhóis, portugueses. À noite os homens chegavam das fábricas, jantavam e nas noites mais quentes punham as cadeiras na porta de casa, ficavam contando as histórias da guerra, do que acontecia nas aldeias de onde eles vinham. Eu era moleque, tinha 5, 6 anos. Eu sentava no meio deles, no chão, e ficava ouvindo com a maior curiosidade. Eu não sou escritor de ficção, gosto de contar essas histórias mesmo.”
– Mas o senhor se interessa por ficção ou fantasia? Lê algo nesse sentido? “Leio muita ficção. Aliás, leio mais ficção do que não ficção – livros que me marcaram muito de autores como Machado de Assis, Tolstói, Gogol, Flaubert.”
– Nunca pensou em se aventurar nessa área? “Não, por incompetência mesmo. Acho que eu não saberia fazer. Não tenho essa imaginação que os escritores de ficção têm. Se para aquilo que você tem facilidade já é difícil escrever, quando você tem dificuldade, esquece. Vai fazer outra coisa.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.