No momento em que o filme “Ainda estou aqui” apresenta ao mundo a história do engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, sequestrado, torturado e morto pela ditadura militar (1964-1985), o Levante Popular da Juventude, organização que luta por justiça e memória, realizou um protesto em frente ao prédio onde vive o general reformado do Exército José Antônio Nogueira Belham, acusado de torturar Paiva, cobrando punição. A mobilização ocorreu na manhã de segunda-feira (24), na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, no Rio de Janeiro (RJ).
Então comandante do DOI-Codi do 1º Exército, Belham foi apontado pela Comissão Nacional da Verdade, em 2014, como um dos responsáveis pela morte de Paiva nas dependências do departamento, em 1971. Junto com outros quatro militares, foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) pelo homicídio. No momento, o processo está arquivado, com base na Lei da Anistia. Porém, na última sexta-feira (21), o Supremo Tribunal Federal decidiu que vai reavaliar a validade da anistia no caso desses cinco militares.
Um dos objetivos do protesto foi justamente fazer pressão sobre essa questão e reivindicar que a Lei da Anistia não seja aplicada a crimes de desaparecimento forçado, tortura, assassinato e ocultação de cadáver na ditadura. Durante a mobilização, manifestantes exibiram cartazes com fotografias do ex-deputado e de outras vítimas do regime militar com cânticos e pedidos de justiça a plenos pulmões.
“Bom dia, Zé Antônio! Como vai? Com verdade e justiça, a juventude está na rua e não vamos esquecer a ditadura!”, entoaram.
No asfalto em frente ao prédio, foi pintada, na cor branca, a frase “Ainda estamos aqui”, em referência ao livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, filho do ex-deputado, e que inspirou o longa homônimo, concorrente em três categorias no Oscar 2025. Em um jogral, os manifestantes chamaram Belham de torturador e disseram que jamais perdoarão seus crimes.
“Para escrachar José Antônio Nogueira Belham, ex-general, ex-chefe do DOI-Codi e torturador de Rubens Paiva! Nós não nos esquecemos! Nós não perdoaremos! Nós ainda estamos aqui, torturador! A Lei da Anistia não pode encobrir crimes contra a humanidade. Nós exigimos que os militares golpistas sejam expulsos das Forças Armadas e percam seus privilégios e benefícios. Que sejam responsabilizados pelos seus crimes. Justiça pro Rubens Paiva e para todas as vítimas da ditadura. Nós ainda estamos aqui”, declarava o coro.
“Exigimos ainda que todo militar que cometeu crimes contra a humanidade seja desvinculado das Forças Armadas do Brasil. Que seus títulos sejam retirados e honrarias sejam revogadas. Achamos inadmissível que, além da impunidade, estes ainda recebam do estado quantias altíssimas, que chamamos de ‘bolsa-torturador’”,enfatiza Daiane Araújo, integrante da coordenação nacional do Levante Popular. “No ato, usamos instrumentos de percussão para entoar nossos cantos de residência e nossa mensagem política. O general, por sua vez, não apareceu. Devia estar envergonhado. A vizinhança assistiu com curiosidade e fez alguns registros. Não questionou e nem reagiu negativamente.”
Agressão no carnaval
A manifestação ocorreu um dia após o escritor Marcelo Rubens Paiva ter sido agredido durante o desfile do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, em São Paulo, no domingo (23), quando um folião arremessou uma mochila e uma lata de cerveja em sua direção. Porta-estandarte do cortejo desde 2009, Marcelo era homenageado pelo bloco. As informações são do jornal O Globo.