Sexta-feira, 04 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 2 de abril de 2025
“Ter ou não ter filhos?” Essa é uma questão que vem sendo discutida ao longo dos anos. Se antes a mulher não se sentia uma pessoa realizada por não vivenciar a maternidade, essa máxima vem, aos poucos, mudando conforme a sociedade evolui e novos formatos de família vão surgindo. No Brasil, está acontecendo uma queda expressiva na taxa de fecundidade. De acordo com o Observatório Nacional da Família, a média de filhos caiu de 2,32 por mulher em 2000 para 1,57 em 2023, com previsão de chegar a 1,47 até 2030.
A escolha de não ter filhos, cercada por pressões sociais, inspirou a jornalista Amanda Dantas a escrever o livro ‘Sem filhos, sem culpa! Uma análise sobre a decisão de não ter filhos’. Publicado pela editora Appris, a obra aprofunda esse debate em uma sociedade que ainda valoriza a maternidade. O lançamento aconteceu neste mês em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Amanda Dantas analisa, com base em ampla revisão de literatura e entrevistas, os fatores que influenciam homens e mulheres a optarem pela não parentalidade. Entre os aspectos abordados na obra, destacam-se o impacto da independência financeira e da ascensão feminina no mercado de trabalho, o papel da rede de apoio (ou a falta dela) e as pressões sociais enfrentadas por aqueles que optam por não ter filhos.
“A sociedade construiu a ideia de que crescer, casar e ter filhos é a única forma de alcançar a felicidade e a plenitude. Eu discordo. Não quero ter filhos, tenho muitos amigos que também não querem, e quis entender a fundo os processos decisórios por trás dessa escolha. Meu objetivo com essa obra não é criar um novo imperativo de que não ter filhos é o certo, mas sim abrir espaço para que as pessoas possam decidir livremente qual caminho seguir, sem culpa e sem julgamentos, incluindo os homens nessa conversa”, afirma Amanda, também participante do Fórum do Campo Lacaniano Região Serrana do Rio de Janeiro.
“As histórias pessoais vão além de narrativas individuais e se conectam a questões sociais mais amplas, como o impacto do gênero nas expectativas da sociedade. Enquanto os homens enfrentam menos cobranças sobre a paternidade, as mulheres costumam lidar com um julgamento mais severo, sendo frequentemente questionadas sobre sua realização pessoal e futuro”, explica Amanda.
O marcador social de raça também merece destaque nesse debate. As mulheres com mais probabilidade de adiar a maternidade são solteiras, brancas, moradoras de áreas urbanas, metropolitanas e da região Sudeste do país, motivadas por aumentar o tempo dedicado aos estudos e em alcançar estabilidade profissional. Já as mulheres negras enfrentam desafios adicionais relacionados ao racismo e à desigualdade social.
“Uma das entrevistadas expressou seu temor diante da maternidade, destacando o perigo constante enfrentado por pessoas negras na sociedade. Suas reflexões evidenciam como o racismo estrutural afeta não apenas a experiência cotidiana, mas também as decisões reprodutivas, criando um ambiente de insegurança e preocupação extras”, completa a autora. Em entrevista ao jornal O Dia, a escritora Amanda Dantas falam porque resolveu abordar essa questão, que está em voga nos dias atuais.
Você nunca teve vontade de ter filhos ou isso aconteceu com o decorrer do tempo? Atualmente, muitas mulheres não têm.
Amanda Dantas: Nunca tive vontade de ter filhos. Na adolescência, cheguei a considerar a possibilidade, mas apenas porque via a maternidade como um caminho “natural” da vida, já que quase todo mundo seguia esse roteiro. Mas nunca foi um desejo. Um dos mitos mais recorrentes sobre a não maternidade é a ideia de que, com o tempo, vem o arrependimento, especialmente para as mulheres, por conta do chamado ‘relógio biológico’. Essa narrativa desconsidera que a parentalidade não se limita à reprodução. No livro, não há distinção entre filhos biológicos e adotados, justamente porque, se o desejo de ter filhos surgisse mais tarde, a adoção continuaria sendo uma possibilidade. O arrependimento simplesmente não aconteceu comigo, assim como não aconteceu com muitas pessoas entrevistadas na pesquisa que resultou no livro. Pelo contrário: a cada ano, elas reafirmam que não ter filhos foi a melhor decisão para suas vidas.
Muita gente opta por não ter filhos, mas algumas pessoas afirmam que a mulher biologicamente foi preparada para ter os seus rebentos e que isso é balela. O que você diria para a pessoa que tem essa opinião?
Amanda Dantas: Para mim, ter um filho deve ser fruto de um desejo. Se esse desejo existe, ter filhos é uma escolha válida. Da mesma forma, não tê-los também é uma decisão legítima. Todos os dias fazemos inúmeras escolhas, e a parentalidade é apenas uma delas, não um destino obrigatório. As informações são do portal O Dia.