Sexta-feira, 04 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 3 de abril de 2025
Uma nova pílula anticoncepcional combinada, a Nextela, chega ao mercado brasileiro em abril. A grande inovação é o uso do estetrol, um estrogênio praticamente idêntico ao natural, que parece ter um impacto menor no fígado e em fatores de coagulação, o que promete mais segurança, menos efeitos adversos e, ao que tudo indica, um menor risco de eventos tromboembólicos — um efeito adverso raro, mas que preocupa as usuárias desse tipo de medicamento.
A pílula — que associa drospirenona, um progestagênio responsável pela prevenção da gravidez, e o estetrol — é comercializada, desde 2021, em mais de 40 países, como Canadá, Estados Unidos, Austrália, Israel, Japão, Rússia e Taiwan, além de nações europeias. A farmacêutica brasileira Libbs adquiriu a tecnologia para a produção do contraceptivo oral e espera atender 41 mil pacientes já neste primeiro ano de vendas.
“Em 2010, foi lançada pela primeira vez uma pílula com estrogênio natural e, nesses 15 anos, ficamos num gap de alguma novidade”, contou a ginecologista Maria Celeste Osório Wender, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), durante o evento de lançamento do produto, que ocorreu na sexta-feira, 28. A nova pílula, segundo ela, traz “algumas vantagens”. “Especialmente uma menor retenção líquida, que é um dos desejos das mulheres usuárias de anticoncepcional.”
O jornal O Estado de S. Paulo consultou também médicos que não participaram do evento, e eles se mostraram igualmente entusiasmados com a chegada de uma opção para o cardápio brasileiro de anticoncepção.
“Quem já usa esse medicamento na Europa relata mesmo que ele tem uma tolerabilidade muito boa”, fala Rogério Felizi, ginecologista e coordenador do Centro Especializado em Endometriose do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Segundo o médico, mulheres que sofrem de náuseas ou retêm líquido ao usar outros anticoncepcionais parecem ter menos efeitos colaterais quando migram para essa nova opção.
De acordo com a Libbs, mais de 380 mil mulheres europeias já utilizam o Nextella.
“Essa formulação veio para minimizar os efeitos colaterais de outras pílulas”, concorda Zsuzsanna Jármy Di Bella, coordenadora da Ginecologia do Setor de Planejamento Familiar e chefe da disciplina de Ginecologia Geral da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp). “Diminuir o risco de tromboembolismo sempre é positivo, e mostra a história da evolução dos métodos contraceptivos hormonais.”
A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) já definiu qual será o preço máximo que pode ser repassado ao consumidor (PMC) pelas farmácias e drogarias. Ele varia conforme a incidência de ICMS em medicamentos de cada Estado. Na prática, de acordo com a Libbs, o valor vai variar entre R$109,91 e R$117,82.
O que é o estetrol? O estetrol foi identificado pela primeira vez na década de 1960. Ele é um estrogênio natural produzido exclusivamente pelo fígado do feto humano, ou seja, todos nós, homens ou mulheres, já produzimos a molécula — aqui é válido ressaltar que o estetrol usado na pílula é sintetizado por meio de fontes vegetais e é praticamente idêntico ao natural.
De acordo com Maria Celeste, imagina-se que, na vida intraútero, ele tenha funções como proteção imunológica e neuroproteção. Para a gestante — ele já foi identificado no sangue delas —, a molécula parece proteger as mamas e promover a vasodilatação do útero (fundamental para garantir o suprimento adequado de oxigênio e nutrientes ao feto em desenvolvimento).
Foram anos de pesquisas e testes para comprovar que essa molécula tão importante para fetos e gestantes poderia compor a pílula que ajuda justamente a prevenir a gravidez.
Qual é o papel do estetrol na pílula? Para entender as inovações que o estetrol promete trazer, precisamos dar alguns passos atrás e relembrar como funcionam as pílulas anticoncepcionais combinadas. Como o próprio nome diz, elas associam um progestagênio, responsável pelos efeitos contraceptivos, a um estrogênio, elemento que reduz sangramentos irregulares.
Seria possível usar apenas o progestogênio sozinho, afinal, é ele quem impede a gravidez — algumas mulheres que são tabagistas, hipertensas ou cardiopatas só podem usar produtos assim, devido aos eventuais riscos do estrogênio nessas circunstâncias. Mas, muitas vezes, sem a adição do estrogênio, a mulher apresenta sangramentos irregulares, segundo Maria Celeste. “Isso é incompatível com a qualidade de vida. Elas abandonam o método.”
Por muito tempo, o estrogênio sintético foi a solução — e ele ainda predomina, de acordo com a presidente da Febrasgo, mesmo com a introdução do estrogênio natural na década de 2010.
O grande problema, segundo a bióloga Juliana Dinéia Perez Brandão, doutora em Ciências e coordenadora do time de relacionamento científico da Libbs, é o impacto do hormônio sintético no fígado, onde passa diversas vezes para ser transformado (ou metabolizado). “Cada vez que ele passa pelo órgão, vai causando um impacto, e gera metabólitos ativos que (o organismo) não consegue eliminar. Isso pode vir a se tornar um efeito adverso”, ensina.
Ao longo do tempo, claro, a pílula, mesmo com estrogênio sintético, foi se tornando cada vez mais segura, especialmente por conta da redução nas doses de hormônios. Mas, para Juliana, o estetrol representa um passo além. “É um estrogênio que tem um menor impacto no organismo”, resume. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.