Domingo, 06 de abril de 2025
Por Redação O Sul | 5 de abril de 2025
A relação entre Brasil e Paraguai vive sob estresse desde que o portal UOL revelou, no último dia 31, uma operação de espionagem da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre as posições de Assunção em duas negociações em torno da energia gerada pela binacional Itaipu — ambas, por sinal, de interesse dos consumidores do país.
O governo de Santiago Peña tratou o episódio como quebra de confiança na relação entre os sócios do Mercosul, além de violação do direito internacional. O presidente do país vizinho disse na sexta-feira (4) que “velhas feridas” foram abertas.
Seria improvável uma avaliação mais complacente diante dos fatos trazidos a público e das lacunas ainda visíveis nas explicações do governo brasileiro.
De pronto, Assunção suspendeu as negociações da nova versão do chamado Anexo C do Tratado de Itaipu, que definirão as novas bases financeiras da empresa binacional — a assinatura estava prevista para 30 de maio. Um pré-acordo já alcançado previa a redução de tarifa pela hidrelétrica a partir de 2026.
Na seara diplomática, o imbróglio escalou com a convocação a Assunção do embaixador do Paraguai em Brasília, Juan Ángel Delgadillo, e o chamado do embaixador brasileiro, José Antônio Marcondes de Carvalho, para explicar-se à chancelaria paraguaia — duas tradicionais demonstrações de crise nascente.
Conforme a reportagem do UOL, a Polícia Federal abriu investigação ao identificar que a Abin autorizara a invasão de dispositivos informáticos do governo, do Congresso e de autoridades do Paraguai em junho de 2022, durante a administração de Jair Bolsonaro (PL).
A finalidade da operação seria extrair informações sigilosas sobre as posições do país vizinho no Anexo C e também no acordo de preços da parcela de energia de Itaipu que cabe aos paraguaios e é vendida ao Brasil.
Por meio de nota, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negou seu envolvimento na espionagem e informou tê-la “tornado sem efeito” em março de 2023, ao tomar conhecimento do caso. Entretanto, deixou sem respostas questões ainda capazes de afetar a negociação relativa à Itaipu e à própria relação bilateral.
Primeiro, sobre o fato de o atual diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, ter dado aval ao início da operação, como integrante da diretoria da agência em 2022. Igualmente relevante — e bem mais difícil — será demonstrar que as informações colhidas não influenciaram as posições brasileiras nas negociações. (As informações são da Folha de S.Paulo)