“Quem você escolheria como o próximo Bond?”, perguntou Jeff Bezos. E assim começou uma nova era para a maior estrela do cinema britânico. A pergunta foi feita semana passada para marcar a aquisição do controle criativo da franquia James Bond. Sendo 2025, Bezos fez a postagem no X, com sua curiosidade moldada como um apelo populista que poderia, de fato, se concretizar. Com um pouco de esforço era possível até mesmo enxergar um convite quase majestoso da figura meticulosamente musculosa de Bezos, que, afinal, compartilha das mesmas iniciais do personagem. Meu Deus, será que era para termos votado nele?
O acordo garante que os produtores de longa data Barbara Broccoli e Michael G. Wilson continuarão coproprietários da marca, mas com todas as decisões cinematográficas agora sendo domínio da companhia que comprou o estúdio original de Bond, a MGM, em 2021. Por trás do comunicado à imprensa educadamente otimista, isso representa o fim brutal de um negócio familiar. Os filhos adultos do produtor original de James Bond, Albert “Cubby” Broccoli, serão agora relegados ao banco de trás — ou ao porta-malas — do Aston Martin de 007, enquanto Bezos e equipe assumem o volante.
A transferência pode não ter sido totalmente amigável. Por algum tempo, relatos sugeriram uma relação tensa nas discussões sobre o futuro do papel deixado vago por Daniel Craig após o filme mais recente de Bond, “Sem Tempo para Morrer”, de 2021. Em dezembro, relatos dão conta de que Barbara Broccoli teria chamado seus parceiros corporativos de “idiotas de merda”.
Há quem na indústria do cinema sinta que ela tem razão. Em geral, como criadora de cinema popular e de alta qualidade, a Amazon se mostrou uma experiente vendedora online. No ano passado, por exemplo, o filme do estúdio que se saiu melhor nas bilheterias foi “Red One: Missão Secreta”, uma comédia natalina bastante criticada, estrelada por Dwayne “The Rock” Johnson, cujo faturamento de US$ 185 milhões representou um grande prejuízo, uma vez que o orçamento do filme foi de US$ 250 milhões.
Ainda assim, os cinemas provavelmente serão apenas uma parte limitada do futuro de James Bond. Afinal de contas, “Red One” posteriormente encontrou seu público no braço de streaming da Amazon. Uma suposição razoável é que agora a companhia agirá rapidamente para acabar com a estagnação de quatro anos desde “Sem Tempo para Morrer”, que, segundo relatos, foi em parte causada por desentendimentos sobre quem deveria substituir Craig. (Comenta-se que a Amazon prefere um nome já conhecido.)
Mas uma aposta ainda mais segura é que os novos filmes de James Bond serão acompanhados de todo tipo de derivados (spin-offs) e “histórias de origem” mais baratas, para deleite dos assinantes do Prime. Quinhentos episódios idênticos de “Moneypenny: A Série” e “O Jovem Pistoleiro” (“Young Oddjob”, em inglês), lá vamos nós.
Tudo isso fará parte de um novo capítulo desconhecido. A Amazon certamente chamaria isso de uma adaptação inevitável ao espírito multiplataforma dos tempos atuais. Sob os cuidados de Broccoli e Wilson, Bond permaneceu uma marca de prestígio ferozmente protegida, tratada como muito mais do que uma simples propriedade intelectual. No entanto, todos os sinais indicam que Bezos comprou a MGM como tesouro exatamente disso. (Dizem que as primeiras rusgas com os produtores surgiram quando a executiva da Amazon Jennifer Salke chamou Bond de “conteúdo” em uma reunião.)
Para Bezos, o acordo também significou que ele se viu comprando James Bond poucos meses antes do lançamento programado de “Sem Tempo para Morrer”. O filme arrecadou US$ 774 milhões — uma soma respeitável, mas insuficiente para empatar o investimento. Prestígio custa caro.
Broccoli e Wilson podem muito bem alegar que o filme foi lançado com a covid-19 ainda causando estragos. O contra-argumento seria que, desde 2021, alguns filmes muito caros estrelando velhos favoritos supostamente “à prova de balas” foram recebidos sem muito entusiasmo pelo público moderno. Tomem-se os casos de “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” e o mais recente “Missão: Impossível”. O contra-argumento do contra-argumento seria que esses filmes ainda se saíram melhor nos cinemas do que “Red One”.
Mas, também culturalmente, Bond se encontra em um ponto de inflexão. Antes mesmo de Daniel Craig sair, já havia uma discussão sobre o lugar de um personagem que sempre foi tão definitivamente branco, masculino, heterossexual e sem deficiências. Agora, é fácil imaginar Bezos optando por aproveitar a adulação online que receberia por trazer o personagem de volta à “manosfera” bombada. Um possível futuro poderia até envolver o aumento dos palavrões e do derramamento de sangue, numa tentativa de superar os filmes da franquia “Kingsman”, versões alegremente pueris do mito de Bond que se tornaram grandes sucessos, enquanto Broccoli e Wilson levavam o verdadeiro personagem para direções mais adultas.
Ele poderá até mesmo acabar virando americano. É difícil ignorar a ironia do momento. Broccoli e Wilson são portadores de passaporte duplo britânico-americano, mas o acordo ainda parece carregado de simbolismo nacional em um ponto de forte atrito entre os antigos aliados transatlânticos. As informações são do jornal Financial Times.