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Por que em Porto Alegre dias de chuva extrema mais que dobraram desde os anos 1960

Trabalho do corpo de bombeiros na contenção das águas elevadas do Rio Guaiba. (Fotos: Lauro Alves/SECOM)

O Rio Grande do Sul enfrentou nessa sexta-feira (3), o quarto dia consecutivo de chuvas que resultaram no “maior desastre climático” do Estado, segundo o governador Eduardo Leite (PSDB). Mais de 200 municípios já foram afetados, contabilizando ao menos 39 mortos, 68 desaparecidos e mais de 30 mil pessoas fora de suas casas.

Um dos principais rios gaúchos, o Guaíba passou dos 3,7 metros, maior nível desde a enchente recorde de 1941. Ruas do centro e a rodoviária da capital estão tomadas pela água. Dados históricos apontam o agravamento dos efeitos das mudanças climáticas na capital gaúcha, que tem registrado mais dias de chuvas extremas.

Calculada a partir dos valores médios de variáveis meteorológicas em um período mínimo de três décadas consecutivas, a normal climatológica é usada como referência para as características médias do clima em um determinado local.

Além de evidenciar a anomalia do temporal recente, o cálculo das normais climatológicas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostra como o número de dias com extremos de precipitação (acima de 50 milímetros) vem aumentando na cidade a cada década desde 1961.

Levantamento do Inmet mostra que, na década de 2011 a 2020, Porto Alegre teve 66 dias de precipitação acima de 50mm, 8 dias acima de 80 mm, e 2 dias acima de 100 mm.

No período anterior, entre 2001 e 2010, esse total foi de 44 dias e, entre 1961 e 1970, a primeira década contabilizada no estudo, foram 29 dias. Ou seja, o aumento foi de mais que o dobro.

O maior número de dias de chuva acima de 50 mm, 80 mm e 100 mm é condizente com o aumento da frequência, intensidade e duração de eventos climáticos extremos por conta da crise climática.

O estudo do Inmet cita o relatório de 2022 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas, o IPCC, afirmando que “os extremos estão superando a resiliência de alguns ecossistemas e sistemas humanos, e desafiando as capacidades de adaptação de outros, incluindo impactos com consequências irreversíveis”.

Sistema de contenção

A estimativa é que o Guaíba chegue a 5,5 metros entre esta sexta e o sábado (4), o que é quase o dobro da cota de inundação. Há o temor de que possa colapsar o sistema de contenção contra cheias da cidade (que envolve comportas, muro, vias elevadas e bombeamento de água), pois há registros de problemas e é um dos principais responsáveis pelas águas não terem avançado ainda mais.

Porto Alegre se desenvolveu em direção ao Guaíba, inclusive aterrando algumas partes. A localização geográfica, em termos de Estado, faz com que a capital esteja rio abaixo de muitas outras regiões e rios importantes (como o Taquari, outro que também enfrenta cheia histórica semana).

Sempre que há um temporal na região central ou noroeste do Rio Grande do Sul, essas águas descem e vêm em direção ao Guaíba, elevando os níveis. Neste caso, ocorrem chuvas extremas na região central gaúcha, o que fez com que os níveis se elevassem de forma muito acentuada no Guaíba.

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