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Por Redação O Sul | 22 de fevereiro de 2023
Em seu discurso anual à nação, o presidente Vladimir Putin anunciou a suspensão da participação de Moscou no tratado de desarmamento nuclear Novo Start, último acordo desse tipo com os Estados Unidos. O líder russo também acusou os países ocidentais de usar o conflito na Ucrânia para “acabar” com a Rússia, responsabilizando-os pela escalada.
O anúncio ocorreu poucas horas antes de um discurso do presidente americano, Joe Biden, na Polônia, onde afirmou que a Rússia nunca ganhará a guerra na Ucrânia. O pronunciamento do líder americano foi feito um dia depois de uma visita surpresa à capital ucraniana, quando prometeu mais US$ 500 milhões em ajuda ao país em sua ofensiva contra a Rússia.
“As elites do Ocidente não escondem seu objetivo: infligir uma derrota estratégica à Rússia, ou seja, acabar conosco de uma vez por todas” — disse Putin, acusando o Ocidente de apoiar forças “neonazistas” na Ucrânia para consolidar um Estado antirusso. “A responsabilidade por alimentar o conflito ucraniano, por sua escalada, pelo número de vítimas recai inteiramente sobre as elites ocidentais”.
Acordo Start
A suspensão da participação russa no tratado nuclear é a ruptura mais acentuada de Moscou com o Ocidente até agora. Os Estados Unidos classificaram de “irresponsável” o anúncio feito por Putin, e França e Reino, que também são potências nucleares, pediram a Moscou que reconsiderasse sua “precipitada decisão” e “demonstrasse responsabilidade”.
Mas, apesar do anúncio de Putin, a Chancelaria russa assegurou que Moscou “manterá uma abordagem responsável e seguirá respeitando rigorosamente (…) as limitações quantitativas das armas estratégicas ofensivas” até a data de expiração do tratado, em fevereiro de 2026.
Assinado em 2010, o novo Start limita a Rússia e os Estados Unidos a 1.550 armas nucleares posicionadas — ou seja, instaladas em mísseis ou armamentos como veículos ou aeronaves, prontas para uso. Ao interromper a participação no tratado, Putin pode exceder esse limite, ou acabar com a capacidade dos EUA de monitoramento. Em agosto, a Rússia já tinha suspendido as inspeções previstas de suas instalações militares.
Em seu discurso, Putin também advertiu que poderia retomar os testes nucleares russos se os EUA fizerem isso previamente.
Resposta
Após o anúncio, Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan (aliança militar do Ocidente, liderada pelos EUA), disse que “lamentava” a decisão da Rússia, dizendo que isso significa que “toda a arquitetura de controle de armas foi desmantelada”.
“Encorajo fortemente a Rússia a reconsiderar sua decisão e respeitar os acordos existentes”, disse Stoltenberg.
Em Varsóvia, Biden respondeu às acusações e prometeu manter um apoio firme na Ucrânia.
“O Ocidente não está conspirando para atacar a Rússia, como disse hoje Putin. Milhões de cidadãos russos que só queriam viver em paz com seus vizinhos não são o inimigo”, disse Biden a uma multidão reunida em frente ao Palácio Real de Varsóvia. Ele ainda disse “não deve haver dúvida nenhuma: nosso apoio à Ucrânia nunca vacilará e a Ucrânia nunca será uma vitória para a Rússia, nunca”.
Para Biden, Putin acreditava ser “forte”, mas teve de encarar a “vontade de ferro” dos EUA, afirmou que a invasão não foi um teste só para a Ucrânia, mas para o mundo inteiro, e que representa “uma luta pela democracia”.
“Putin está confrontado algo hoje que ele não achava possível um ano atrás”, disse o norte-americano, acrescentando que “Kiev permanece forte, orgulhosa, de pé. E o mais importante: Kiev permanece livre. O desejo covarde do presidente Putin por terra e poder falhará. Os autocratas perderam força”.
Antes do pronunciamento de Biden, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, chamou as acusações de Putin de “absurdas”.
“Ninguém está atacando a Rússia. É absurdo pensar que a Rússia estava sob qualquer tipo de ameaça militar da Ucrânia ou de qualquer outro país”, disse.
Durante o discurso de Putin, as forças russas bombardearam edifícios em Kherson, no sul da Ucrânia, deixando ao menos cinco civis mortos, segundo autoridades do país. Putin fez seu pronunciamento perante a elite política do país e de militares que lutaram na Ucrânia, agradecendo “a todo o povo russo por sua coragem e determinação”.