Sexta-feira, 09 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 1 de novembro de 2015
Foram dois anos de remorso após o acidente, nove meses de cuidados diários e, até o último dia 27 de outubro, mais quatro anos de angústia por ser réu do assassinato do próprio irmão tetraplégico. Quatro dos sete jurados escalados para decidir o futuro do tapeceiro Roberto Rodrigues de Oliveira, 26 anos, consideraram que ele deveria ser absolvido. Concordaram assim com a tese da defesa, segundo a qual Roberto foi alvo de coação moral irresistível do irmão, que implorava pela morte. Ou seja, o mais novo dos nove irmãos Oliveira não conseguiu resistir aos apelos constantes do mais velho.
Em 22 de março de 2009, após um churrasco, o tapeceiro à época com 22 anos subiu em sua moto CG 125 para disputar um racha com o Gol 1000 do irmão, Geraldo Rodrigues de Oliveira, 28. O carro capotou em meio a uma estrada poeirenta em Rio Claro (SP). Daquele dia em diante, o irmão mais velho nunca mais conseguiu mexer um músculo abaixo do pescoço.
Casado, o primogênito dos Oliveira não aceitava o destino do filho que nascera com uma má-formação que resultou em paraplegia. Poucos meses após o acidente, ordenou que a mulher o deixasse e fez do irmão Roberto seu cuidador. As coisas só piorariam.
Rotina.
Geraldo não se mexia, “mas sentia dores fortíssimas toda vez que precisava trocar a sonda de urina. Além de escaras por não ter uma cama e uma cadeira de rodas adequadas”, diz Edmundo Canavezzi, advogado que fez a defesa de Roberto no tribunal.
Quase dois anos depois do acidente, uma nova tragédia. João, outro dos nove irmãos, à época com 24 anos, morreu em um acidente. Àquela altura, Geraldo já tinha uma ideia fixa: morrer. Decidiu, então, que Roberto deveria matá-lo. A princípio, pensou em morte por envenenamento. Após muito refletir, no entanto, decidiu que não era uma boa. Finalmente, ele se decidiu e comunicou o irmão – que, segundo a defesa, resistiu até onde pode.
Latrocínio. Seria assim a morte do mais velho, uma simulação de um assalto seguido de assassinato. “A arma usada na morte foi comprada com o dinheiro que Geraldo recebeu do seguro DPVAT após o acidente de carro. Deu para o Roberto e mandou ele arranjar o revólver”, revela o advogado.
Mascarado e com um revólver calibre 38, Roberto simulou a invasão da própria casa. Pulou o muro, entrou pela janela, disparou duas vezes contra o irmão e fugiu levando 200 reais. Era então o dia 22 de novembro de 2011, a data escolhida por Geraldo.
Os irmãos viviam em uma casa humilde, em bairro periférico. O latrocínio parecia ainda mais suspeito quando se verificava que os tiros haviam atingido a cabeça e o pescoço de um homem tetraplégico.
A farsa criada por Geraldo não resistiu muito. Um sobrinho estava na casa na hora do crime e, confrontado pela polícia, acabou por confessar que a morte havia sido combinada. Foi pedida a prisão temporária de Roberto. O jovem passou 28 dias preso e respondeu ao processo em liberdade.
Julgamento.
Canavezzi conheceu Roberto há pouco mais de duas semanas. Convidado pelas advogadas do réu, não cobrou para assumir a defesa no Tribunal do Júri. Trabalhou com duas possibilidades para livrá-lo do crime que poderia render até 20 anos de cadeia.
Na primeira, tratou de convencer os jurados que o jovem não teve como resistir às súplicas do irmão mais velho, ainda mais por este ser quem “comandava a família”. Se desse errado, restaria ainda pedir o perdão judicial. “Não queria isso, porque implicaria em ele ser considerado culpado”, diz Canavezzi. Em pouco mais de 1h30min, os jurados decidiram: Roberto é inocente pela morte do irmão.