Quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
Por Redação O Sul | 27 de fevereiro de 2022
Sitiada por tropas russas, a Ucrânia resiste. Auxiliadas por fileiras de cidadãos convocados pelo presidente Volodymyr Zelensky, suas forças armadas se concentram nas grandes cidades, o que tornará mais difícil e custosa para os russos a conclusão da chamada “operação militar especial” idealizada por Vladimir Putin.
Em algum momento, no entanto, a superioridade russa deverá se impor: o uso indiscriminado da força já se estabeleceu anteriormente no Afeganistão, na Chechênia e, mais recentemente, na Síria. Isso nos permite traçar alguns cenários sobre o futuro da Ucrânia.
Tomar a capital Kiev seria o grande trunfo de Putin, mas o poderio russo parece almejar também as grandes cidades, entrando no terreno incalculável de uma guerra urbana. No dia seguinte à invasão do país, ele incentivou as forças armadas da Ucrânia a derrubarem o governo Zelensky – “uma gangue de viciados em drogas neonazistas” – e negociarem com o Kremlin.
O presidente ucraniano reconhece que é o principal alvo de Putin. A capitulação de Kiev seria seguida à deposição de Zelensky e sua substituição por um interino pró-russo. Como aconteceu na Crimeia, em 2014, a convocação de um referendo, sem observadores internacionais, respaldaria, sem surpresas, um governo alinhado com o Kremlin.
Putin rasgou com facilidade os acordos de Minsk, que sustentavam fragilmente o status quo em Luhansk e Donetsk, agora reconhecidas como nações por Moscou. A invasão em várias frentes do país mostrou que as ambições de Putin são bem maiores do que a independência de duas províncias separatistas, conforme ele evidenciou num de seus discursos:
“A Ucrânia é uma parte inalienável de nossa história, cultura e espaço espiritual. Desde tempos imemoriais, as pessoas que vivem no Sudoeste se autodenominam russos.” Mais do que desconhecer a legitimidade do vizinho como nação, Putin não deseja ter uma democracia pró-ocidental perto de sua órbita de influência, que possa inspirar os russos.
Há 22 anos no poder, Putin abriu o caminho, por meio de uma reforma constitucional, para se manter até 2036 no cargo. Como explicam os cientistas políticos Samuel Greene e Graeme Robertson, ele aposta que a combinação de sucesso militar, da poderosa máquina de propaganda e da repressão generalizada manterá o descontentamento doméstico sob controle e a elite do seu lado.
“É possível que a aposta dê certo, que a fusão da ditadura doméstica com a ambição imperial seja efetiva. No entanto, há boas razões para ser cético”, atestam os professores e autores de um livro sobre Putin, em artigo publicado no “Washington Post”.
As sanções aplicadas pelos EUA e seus aliados europeus subiram de patamar, com a exclusão de alguns bancos russos do sistema Swift.
Resta saber que tipo de ocupação da Ucrânia passa pela mente do presidente autocrata russo para minar a tendência pró-ocidental do país, mantendo-a desmilitarizada e definitivamente fora do alcance da Otan. Ainda que o país sobreviva ou saia dessa guerra com território menor, as aspirações dos ucranianos em direção ao Ocidente certamente terão sido reforçadas após a ofensiva desproporcional da Rússia.