Segunda-feira, 06 de janeiro de 2025
Por Redação O Sul | 31 de março de 2019
Quase seis décadas após sua morte, é fácil encontrar referências a Oswaldo Aranha em cardápios de restaurantes cariocas – onde um filé batizado em sua honra é prato tradicional – ou em dezenas de placas de ruas pelo Brasil. Mas em sua época, poucos brasileiros tiveram tanta projeção mundial.
A curiosidade pelo advogado, político e diplomata Oswaldo Euclides de Sousa Aranha (1884-1960) deve ganhar impulso com a visita de Bolsonaro a Israel.
“É motivo de muito orgulho para mim e para o povo do meu país o papel que o nosso chanceler Oswaldo Aranha desempenhou na criação do nosso Estado de Israel. Eu disse nosso”, afirmou Bolsonaro em discurso ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante cerimônia de recepção à comitiva brasileira neste domingo (31).
Em Jerusalém, ponto alto da agenda, uma praça central mantida com doações de empresas e entidades brasileiras homenageia Aranha. Na internet, a página dedicada ao lugar lembra-o como “chanceler do Brasil e presidente da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, que deu seu apoio à decisão da ONU pela Partilha da Palestina em 1947, que levou à criação do Estado de Israel”.
Em Tel Aviv, Ber-Sheva e Ramat-Gan, ruas receberam o nome do brasileiro. Para um presidente interessado em estreitar laços com Israel, a memória do compatriota representa um ativo simbólico de peso.
Partilha da Palestina
Embora a aprovação pela ONU da partilha da Palestina, em 29 de novembro de 1947, seja menos celebrada em Israel do que a proclamação do Estado judeu, em 14 de maio do ano seguinte, as duas decisões estão intimamente relacionadas. A ideia de um lar nacional judaico na Palestina remontava ao final do século 19, mas a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto deram-lhe uma atualidade dramática.
Esgotado pelo conflito na Europa e sob pressão dos Estados Unidos, o Reino Unido, que controlava a região desde 1917 com crescente dificuldade diante das rebeliões de judeus e árabes, fazia planos para se retirar. Em meio a essa turbulência, a ONU, recém-criada para substituir a Liga das Nações, encarregou uma comissão de elaborar um plano de partilha da região entre judeus, árabes e comunidade internacional.
O papel de Aranha à frente da Assembleia Geral de novembro de 1947, a segunda em caráter regular realizada pela organização, é alvo de controvérsia desde que o resultado (33 votos favoráveis, 13 contrários, 10 abstenções e uma ausência) foi proclamado. Para ser adotada, a resolução pela partilha deveria alcançar os votos de dois terços dos países presentes à Assembleia. Partidários da causa da divisão da região, os sionistas (partidários da criação de um Estado judeu) tinham fortes aliados: os governos americano e soviético, além de uma parte dos países da Europa Ocidental e da América Latina. Contra a proposição, alinhavam-se os países árabes e muçulmanos.
Nesse cenário, o peso do responsável pela condução dos trabalhos poderia ser decisivo. E foi, como reconhecem especialistas, numa rara unanimidade. “No momento em que compreendeu que a partilha poderia ser aprovada, Aranha teve uma grande ação de bastidores e ajudou a definir o voto de países latino-americanos que queriam ficar bem com o Brasil”, afirma Corrêa do Lago.
“Na Assembleia Geral, Aranha foi um ótimo político e um articulador fantástico”, afirma Maria Luiza Tucci Carneiro, professora aposentada do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). “O Brasil poderia simplesmente ter votado a favor da partilha e perder. Efetivamente, além de votar, ele colaborou com a vitória (da resolução)”, sustenta Fabio Koifman, professor do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.