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Se os Estados Unidos e a China encerrarem o conflito em breve, as exportações do Brasil devem recuar

Outro risco é como o presidente eleito, Jair Bolsonaro, vai lidar com importantes parceiros comerciais do agronegócio brasileiro. (Foto: EBC)

Apesar do brilho nos olhos dos exportadores do agronegócio brasileiro quando ouvem a palavra China, há riscos atuais e futuros que devem ser considerados pelo setor, para que, em uma eventual mudança de cenário, não fiquem com a mercadoria encalhada nos portos. O “temor” mais imediato diz respeito à chance de Estados Unidos e China colocarem um ponto final na guerra comercial. O mercado aventa a possibilidade – embora remota – de uma solução do impasse entre os gigantes do comércio global no dia 30 de novembro, quando os presidentes americano, Donald Trump, e chinês, Xi Jinping, se encontrarão em Buenos Aires, na reunião de líderes do G-20.

Embora a China demande muitos produtos agropecuários do Brasil, há tarifas protecionistas impostas pelo país asiático e que, finda a guerra comercial, poderiam provocar uma “estagnação” nas vendas de alguns produtos, analisa o presidente da Aliança Agro Ásia-Brasil, Marcos Jank. Em junho, por exemplo, a China impôs taxas antidumping ao frango brasileiro, entre 18% e 38%. “Temos apenas 62 plantas de carnes aprovadas para exportar para lá. Precisamos destravar esse mercado”, diz. Longe da atual “farra” chinesa, o ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, comenta que o Brasil ainda tem “muitos desafios na questão fitossanitária”, que o impede de exportar mais carnes e lácteos.

Novo governo

Outro risco, que representa mais uma incerteza atualmente, é como o presidente eleito, Jair Bolsonaro, que toma posse em 1.º de janeiro, vai lidar com importantes parceiros comerciais do agronegócio brasileiro – não só a China, mas também os países árabes. Durante a campanha, Bolsonaro chegou a afirmar que vê com restrições o boom de investimentos chineses no País. Antes disso, no início do ano, ele fez uma visita a Taiwan, considerada uma ilha rebelde por Pequim, e tema sensível ao governo chinês. Já eleito, suavizou sua postura, ao receber, no início deste mês, o embaixador chinês, Li Jinzhang.

Quanto aos países árabes, as declarações de Bolsonaro, de que tem a intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém – como fizeram os Estados Unidos – também provocou temor de perda de importantes mercados do Brasil em proteína animal. A reação imediata do Egito foi suspender a visita agendada do embaixador brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira. Na quarta-feira da semana passada, Bolsonaro reafirmou a intenção de transferir a representação brasileira: “Eu entendo que quem decide a capital do país é o seu governo. Assim sendo, se o Brasil fosse abrir embaixada em Israel, seria TelAviv ou Jerusalém? Com toda certeza seria Jerusalém”.

Sobre o assunto, Jank afirma que o novo governo tem condições de construir uma política comercial ambiciosa e consistente, mas é preciso tomar cuidado para não “espantar” importantes parceiros por questões ideológicas. “A política externa não pode prejudicar a política comercial.” O representante da Aliança Agro Ásia-Brasil advertiu, ainda, que “uma decisão como essa (de transferir a embaixada) pode afetar as nossas exportações para o mundo islâmico”. E acrescentou: “Só em carnes, exportamos para os países árabes US$ 4,25 bilhões no ano passado. É um mercado que tem crescido 16% ao ano desde 2000”.

Quanto às recentes críticas de Trump à relação comercial com o Brasil, que afirmou ser um dos países “mais duros do mundo”, Jank acredita que o novo governo “tem tudo” para estreitar os laços com os EUA e deve até buscar um acordo bilateral. “O País precisa, sim, fortalecer parcerias com os EUA, deixadas de lado nos últimos anos – mas não em detrimento das relações com a China.”

 

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