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Três meses após ter sido brutalmente atacada por três pitbulls, escritora propõe a esterilização da raça no Brasil

A escritora e poeta Roseana Murray acaba de lançar uma série de poemas inspirada na tragédia, celebrando a vida. (Foto: Reprodução)

Três meses após ter sido brutalmente atacada por três pitbulls, a escritora e poeta Roseana Murray acaba de lançar uma série de poemas inspirada na tragédia, celebrando a vida. Em entrevista ao blog Inconsciente Coletivo, do portal do jornal O Estado de S. Paulo, Roseana propõe a esterilização da raça, enquanto encara com muita fisioterapia e medicação a dor fantasma do braço que se foi, e aguarda ansiosamente pela chegada de uma prótese.

“Fiquei ali, na rua, abraçada com as pedras até que viessem me buscar.” Assim se inicia a recém-lançada série de poemas da escritora e poeta Roseana Murray, sobre o tempo em que ela esteve internada na CTI do Hospital São Gonçalo, recuperando-se de uma tragédia que quase lhe custou a vida. A série está disponível de forma gratuita em seu site.

No dia 5 de abril, por volta das 5h45, Roseana se preparava para se exercitar na academia de seu bairro, Gravatá, no município praiano de Saquarema, no Rio de Janeiro. Quando saiu de casa, percebeu que os três pitbulls do vizinho estavam soltos, na rua. Pior, estavam famintos, como se viria a constatar depois.

Apesar dos latidos ameaçadores a que se habituara a escutar quando, a salvo, passava pela porteira do vizinho, com os cães enclausurados, Roseana decidiu se arriscar e seguiu o passo. Em um instante, os três cães avançaram sobre a escritora e a derrubaram no chão, com a intenção clara de matá-la. Roseana perdeu o braço direito, teve a orelha direita triturada e recebeu mais de 300 pontos.

Os cães chegaram na beirada de seu olho. Arrancaram a artéria para fora do braço. E a feriram muito nas pernas e no rosto. Mas não conseguiram atacar sua cabeça nem alcançaram a jugular.

Roseana perdeu muito sangue. Foram três cirurgias – para amputação do braço, reconstituição da orelha direita e tratamento de feridas várias, em 20 dias de internação. Atualmente, Roseana pratica em casa duas sessões de fisioterapia semanais, duas sessões de terapia ocupacional, e está retomando o pilates. Toma quatro comprimidos de gabapentina por dia, um medicamento de tarja vermelha para dores neuropáticas, e comprimido para dormir.

“Eles me atacaram assim, de cara, com uma ferocidade para matar. Não dava para eu escapar. Eu tentei muito. Eram três pitbulls em cima de mim. Eu tentava me arrastar, mas não dava. Não dava”, lembra ela. Um maratonista, chamado Eduardo, conseguiu tirar os cachorros de cima.

“Ele arrumou um cabo de vassoura não sei como, começou a bater nos cachorros, e eles voaram para cima dele. Daí ele pulou o muro da minha casa, e depois eu não sei direito como foi, sei que veio junto com ele um carro, o cara tinha um facão e deu uma facada, mas de leve, num dos cachorros – e todos entraram para casa. Esses são os relatos que eu tive. Eu não estava vendo absolutamente nada. Já tinha gente na rua, mas ninguém tinha coragem de tirar os cachorros de cima de mim.” E os donos? “Estavam em casa, só saíram muito depois.”

“Eu perdi um braço. Então você tem de reaprender a vida com um único braço, né?”, diz ela. “Não é impossível. Já faço quase tudo. Mas tem coisas que eu não posso fazer. Não consigo dar um laço, um nó em alguma coisa.”

No momento, Roseana está enfrentando a síndrome do braço fantasma. É como se ele ainda estivesse presente, ocasionando dores indescritíveis de formigamento, choque, agulhada ou queimação. A síndrome consiste na percepção de um membro que foi perdido. O sonho de Roseana é ganhar uma prótese, prometida pela prefeitura.

A punição dos proprietários dos animais, segundo ela, não lhe compete. “Não posso fazer nada a respeito. Eu aprendi que a gente não pega pra gente, o que não é da gente. O destino deles não me pertence.”

Com relação aos cães propriamente, Roseana defende a esterilização dos pitbulls no Brasil. A raça possui restrições em cerca de 24 países, incluindo Reino Unido, Espanha, Rússia, Argentina, Itália e Nova Zelândia. Entre os países que regulam a adoção desses cães estão os EUA, Austrália, Alemanha, Japão e Brasil.

“Tem relatos de pitbulls que matam o dono. Então, acho que não é uma raça que deva existir. Ela deveria ser pouco a pouco esterilizada no Brasil, porque existem leis para regular o perigo desses cães. Mas você sabe, o Brasil é um país muito pródigo em leis, tem milhares de leis, mas não são obedecidas porque no Brasil não tem punição”, afirma ela. “Então ninguém anda com focinheira, solta o cachorro (..) Se você coloca a vida de outras pessoas em risco com essa fera, não pode ter pitbull no Brasil. É minha opinião.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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