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Um padre foi xingado na missa ao citar a vereadora assassinada Marielle Franco em uma igreja no Rio de Janeiro

Mário de França tem livros e artigos publicados. (Foto: Divulgação/Arquidiocese do Rio de Janeiro)

O padre Mario de França Miranda, de 81 anos, foi xingado por dois homens em plena missa de domingo na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, após o religioso citar a vereadora Marielle Franco (PSOL), que foi assassinada na noite da última quarta-feira, junto com seu motorista, Anderson Gomes.

O pároco estava terminando a homilia quando fez questão de dizer que a morte da parlamentar não significa o fim de seu trabalho, “que tudo que a gente faz de bom fica eternizado”. Logo em seguida, ele foi hostilizado pelos dois homens, que o chamaram de “padre filho da puta”, conforme informou a coluna de Ancelmo Gois, do jornal O Globo.

De acordo com o padre, ele se espantou com a reação dos homens, que estavam no fundo da igreja, mas tentou não dar importância, já que havia no local outras 500 pessoas e que ele precisava “tocar a missa”. Os dois agressores foram retirados da igreja.

“Fiz a homilia normal, explicando um pouco o texto, e citei Martin Luther King, dom Oscar Romero e pessoas que estão tentando melhorar a sociedade, como Jesus também tentou melhorar e foi assassinado precocemente. O Evangelho fala que o grão cai na terra e dá frutos. Então, eu falei que frutos são esses. Mostrei que, quando se mata uma pessoa parece que tudo termina, mas não. No caso de Jesus, ele influenciou toda a humanidade. E frutos também são aquelas pessoas que tentam seguir esse exemplo: que têm uma vida difícil, mas com sentido e que causam muita paz por fazer o bem”, contou Mario de França, que também é professor da PUC-Rio.

O padre contou que queria dar uma palavra de ânimo para os presentes, já que hoje “estão todos aterrorizados e inseguros” com a crescente violência no Rio. A menção a Marielle e ao motorista Anderson Gomes ocorreu no fim da pregação para, como disse Miranda, “dizer que isso não vai passar assim, como uma página que viramos e acabou”.

“Na outra vida, tudo isso será recuperado. Nada vai se perder. Tudo que a gente faz de bom vai ficar eternizado e vai construir a nossa felicidade”, contou Mario de França. “Quando houve a reação dos dois homens tinha umas 500 pessoas na igreja e eu pensei: tenho que tocar a missa. Não ia ficar preso a um tumulto que lá no fundo da igreja apareceu. Duas pessoas revoltadas. Me xingaram de tudo. Depois nem quiseram me dizer os palavrões. Logo, eles foram retirados da igreja e eu consegui recolocar a missa em oração.”

A radicalização dos ânimos é perigosa, diz padre 

No fim da missa, Mário de França recebeu fiéis na sacristia, que o parabenizaram pelo sermão. De acordo com o padre, os ânimos estão muito radicalizados, com mensagens de ódio.

“Na hora de comungar, algumas pessoas já me diziam que a homilia tinha sido necessária porque a sensação de insegurança tomou os moradores do Rio de Janeiro. Eu nunca vi a situação chegar nesse ponto dramático que estamos vivendo hoje. Eu não poderia deixar de dizer isso no sermão. As pessoas também vão à Igreja para receber uma palavra de conforto, de paz”, contou.

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